Três Livros
O Castelo Animado, de Diana Wynne Jones – Ótimo! Dá vontade de dizer que é melhor que o desenho, mas a verdade é que são duas obras diferentes, com suas próprias qualidades e defeitos. O desenho é filhote do Hayao Miyazaki, então tem tudo aquilo que a gente espera: surrealismo, criaturas bizarras, cenários lindos, a história contada mais através das imagens e das entrelinhas, o inevitável comentário político-social (a bola da vez é a guerra). Agora, o livro não, é a mesma história contada de um jeito totalmente diferente. E eu adorei o jeito da dona Diana Wynne Jones contar histórias: é tão leve e tão cativante, dá vontade de começar a ler e não parar nunca mais. Criativa ao extremo, com a ótima mania de subverter clichês e convenções da fantasia, mas sem dispensar o inevitável final feliz. A heroína de Castelo Animado é uma velhinha de 90 anos, e o mocinho é o mago mais Gallagher de que já se teve notícia. Ótimos personagens, ótimo desenvolvimento de história…sabe aqueles livros que não deveriam acabar nunca? Castelo Animado é um deles.
Vida Encantada, de Diana Wynne Jones – E Vida Encantada também é um desses livros. Talvez até mais do que o Castelo Animado! Primeiro livro da série Crestomanci, também da Diana Wynne Jones, o livro literalmente acaba na melhor parte: sabe quando o personagem principal deixa de ser um bunda e passa a ser fodão? Pois é, acaba aí…e o próximo livro da série NÃO continua a história. Mas tudo bem, um livro tão envolvente pode ser perdoado. O tema do livro é apelativo com qualquer um que goste de fantasia: é sobre um jovem bundão aprendendo a utilizar seus poderes mágicos. Digam o que quiserem, mas boa parte dos livros e filmes que fazem mais sucesso são exatamente sobre isso. Star Wars, Harry Potter, Ender’s Game…se quiserem saber mais, liguem pra um tal de Joseph Campbell que ele fala mais sobre o assunto. O grande trunfo do livro novamente é a criatividade e a paixão da Diana Wynne Jones em virar clichês de ponta-cabeça. Outro trunfo dela é que, mesmo sendo um livro pra crianças, os personagens (em sua maioria) não são unidimensionais, as situações não são simplezinhas como era de se esperar. Crianças são tratadas como crianças, angelicais e cruéis ao mesmo tempo, adultos tem atitudes complexas de adultos…muito bom, muito bom.
Exército de um Homem Só, de Moacyr Scliar – Ok, eu admito: culpado. Comecei a ler só por causa da música dos Engenheiros do Hawaii, não fazia a mínima idéia da história do livro. Só que comecei a ler e não parei mais, até terminar. A história do Capitão Birobidjan, jovem judeu russo totalmente fissurado no ideal socialista, é realmente fascinante. Sua infância no bairro judeu de Porto Alegre, o pai rabino, a mãe que só queria que ele comesse, a fuga com os amigos para um sítio abandonado (para fundar a nova Birobidjan), o fim da adolescência e sua entrada forçada na sociedade, a volta ao mesmo sítio abandonado anos depois (dessa vez com companheiros de gênero e espécies variadas), a volta para a sociedade em grande estilo, a loucura dos últimos anos de vida…Capitão Birobidjan é um cara complexo, controverso, contraditório, difícil, daqueles casos de trancar e jogar a chave fora. Impossível não rir das maluquices dele, não ficar puto com suas filhasdaputice, não achar triste seu fim…”Começamos agora a construção de uma nova sociedade!”