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Another One Rides The Bus

sexta-feira, agosto 14th, 2009

( A Camila escreveu esse post legalzão sobre as coisas que ela atura todo dia indo trabalhar de busão, e eu fui obrigado a imitá-la e despejar toda a raiva que guardo do transporte público. Aliás, boas pessoas: ouçam o que eu digo uma vez na vida, e visitem o Post It! )

Primeiras coisas primeiro: eu sempre me achei uma pessoa que gosta de ônibus. Viajar toda semana pra Ilha Solteira nunca foi problema pra mim – quando o ônibus não estava cheio, e o ar condicionado funcionava, era bem relaxante. 3 horas atravessando o faroeste paulista, ouvindo mp3 e divagando sobre a flexibilidade intrínseca do rabo da lagartixa. Nada mal para exercitar o meu Miguelito interior. Sinto saudades, pra dizer a verdade. Eu gosto de ônibus.

Eu gosto de ônibus. Mas andar 1 hora e meia de coletivo TODO SANTO DIA pra ir e voltar do trabalho todo é de fazer cair o cu da bunda! Tão me achando com cara de quê? Paulistano?*

Uma das coisas que eu noto aqui em Salvador é a mentalidade que ônibus é transporte de pobre. O que na prática é verdade: qualquer pessoa que tira o pé da lama trata logo de comprar um carrinho, porque depender de transporte público aqui é um saco. Não tem metrô, não tem trem, a enorme frota de ônibus acaba atravancando ainda mais o trânsito já fodido da cidade. E olha que Salvador é a terceira maior capital do país! Vamos falar de descaso dos governantes e falta de visão?

Enfim, como eu não pretendo ficar por aqui muito tempo e não tô nem um pouco afim de fazer uma dívida tão grande quanto um carro agora, busão pro Enrique. E dá-lhe busão, e eu não posso nem reclamar muito. As linhas que eu pego pra ir e voltar do trabalho nunca estão realmente lotadas. Volta e meia eu vou em pé, mas é caso raro. Agora, se eu morasse em outro canto da cidade, ou trabalhasse lá no centro…meu amigo, eu tava fodido. Toda santa tarde eu vejo um ônibus que vai pra Ribeira (um bairro literalmente do outro lado da cidade) e eu fico besta. O busão já chega lotado. Lotado tipo até antes da catraca.E aí o ônibus para, e forma-se uma TURBA doida pra entrar no ônibus. E dá-lhe empurrão, dá-lhe cacetada, dá-lhe enfia-daqui-enfia-dali até conseguirem entrar mais 20 pessoas num ônibus que já tinha 80. Sabe carro de palhaço? É fichinha perto do busão da Ribeira!

Mas beleza, uma vez dentro do ônibus você senta e começa a ler suas revistas de horóscopo e celebridades ouvir mp3 e divagar sobre a flexibilidade intrínseca do rabo da lagartixa. Pra mim o mp3 é essencial por vários motivos, sendo o principal deles o filhodeumaputadobaleiro. Eu sinceramente não sei se o fenômeno da proliferação dos filhodeumaputadosbaleiros é particular de Salvador ou toda grande cidade conta com eles, mas aqui eles estão em todo ponto de ônibus. Os filhodeumaputadobaleiro entrem pela porta da frente segurando seus tabuleiros gigantescos abarrotados de balas e doces e sabe-se lá mais o que, efetivamente ocupando todo o espaço do corredor. E não importa que existam pessoas de pé, não importa que o corredor seja estreito, ele PRECISA ir até o fundo do ônibus. E dá-lhe tabuleirada na cabeça dos infelizes. E o mais legal é que ele não faz sua via sacra em silêncio. Nãããão, ele tem um mantra, que todo filhodeumaputadobaleiro deve ser obrigado a aprender antes de começar suas atividades. BOA NOITE PESSOAL DESCULPE INTERROMPER O SILÊNCIO DA VIAGEM DE VOCÊS VENHO AQUI TRAZER ESTAS DELICIOSAS JUJUBAS E DOCES SORTIDOS É UMA DELÍCIA PASSATEMPO DA VIAGEM APRECIE A QUALIDADE VERIFIQUE A VALIDADE! E sim, eu decorei. Chegou num ponto que eu fui obrigado a comprar um mp3 antes que eu virasse berzerker e saísse por aí espancando os filhodeumaputadosbaleiros estilo “Um Dia de Fúria”.

Sobre o que mais eu posso reclamar? Do trânsito caótico da cidade? Sim, do trânsito caótico da cidade! Seguinte: acho que eu já disse que Salvador tem um hub central (que não fica no centro da cidade, mas é central), por onde praticamente todo soteropolitano passa todo santo dia a caminho de casa ou do trabalho. É a região do Iguatemi. Não importa aonde você mora, não importa aonde é o seu trabalho: você VAI passar por lá. Tem quinhentas avenidas que nascem ou desembocam lá, então não há escapatória. E via de regra, todas essas quinhentas avenidas estão engarrafadas a qualquer hora do dia. E o ônibus que eu pego tem esse pequeno detalhe: ele faz o contorno por toooda a região do Iguatemi, e dá uma puta volta antes de pegar o rumo da minha casa. Então, num dia de sorte, eu entre em um ou dois congestionamentos medianos. Num dia de merda, eu demoro duas horas pra chegar em casa.

Enfim, chega de reclamações. A moral é que…hmmm…depender de transporte público ajuda a criar caráter? Caso você seja prefeito um dia, não seja um filho da puta e invista em transporte público? Tocador de mp3 player ajuda a manter a sanidade e evita o cometimento de crimes hediondos? Talvez tudo isso, e mais um pouco. Enfim.

*Paulistano é a mãe! Eu sou caipira! Do mato!

Escape from Salvador

quinta-feira, agosto 6th, 2009

(Eu ia contar isso no twitter em 140 linhas, mas o twitter está de TPM hoje e então eu lembrei que eu tenho um blog! Sim, um blog, esse instrumento de comunicação do século passado, sem essa frescura de 140 caracteres. Pra que escrever em 140 caracteres o que pode ser escrito em 14.000 frases? Prolixo é a senhora sua avó, aquele transformista.)

Hoje eram umas 3 da tarde quando meu pai ligou no celular:

- Ó, me sai mais cedo aí do trabalho hoje. Tão sabendo da história por aí já?
- Não oÔ – não que eu realmente precisasse saber da história, qualquer motivo é motivo pra ir mais cedo pra casa, oras.
- Vai ter paralização da polícia militar a partir das 7 da noite, e a cidade vai virar um caos.

Epa, o trem é grave. Fui falar com o Rodolfo e a Nai, e eles contaram sobre uma outra paralização da polícia, alguns anos atrás. Foi bem divertido: a cidade inteira congestionada e pivetes fazendo a limpa nos carros parados, ônibus assaltados, arrastão em shopping center. Como quem tem * tem medo, só esperei dar cinco horas para arrumar minhas coisas e me picar dali, porque eu ainda ia pegar ônibus pra casa. Por sorte a Manuela me viu:

- Enrique, tu vai embora como?
- Ué, de busão.
- TÁ LOUCO, GURI? Não, você vai comigo, vambora!

Sim, eu sou cagado. E muito.

5 horas da tarde e as avenidas estavam todas congestionadas já. Gozado que todo mundo reclama (e com razão) que a polícia não faz seu serviço, é inefetiva e blábláblá. Ruim com ela, impossível sem ela: não era nem certeza de que a paralização iria ocorrer mesmo, mas de uma hora pra outro todo mundo saiu correndo pra casa ou um lugar seguro que seja. Salvador é um barril de pólvora, uma capital com uma desigualdade social tão grotesca que te impede de desviar os olhos…pelo menos no começo, com o tempo você vai se acostumando (e isso é triste). (E eu sei que não é só Salvador, mas é a capital aonde eu moro)

Agora, todo mundo sabe que polícia não pode entrar em greve. Sabe o jeito que eles deram pra fazer essa operação? Simples: seguiram as leis. De acordo com a constituição, um policial não pode patrulhar ou atuar nas ruas utilizando viaturas com irregularidades, sem armamento apropriado e sem capacitação. Com boa parte da frota sucateada, apenar 15% dos coletes à prova de balas dentro do prazo de validade e sem nenhum PM com certificação para dirigir viatura de emergência, não dá pra seguir a constituição. A partir das 19 horas de hoje, a PM de Salvador começaria a seguir todos os itens da constituição à risca – e ficariam dentro dos quartéis, de braços cruzados.

É mole ou quer mais?

(Acabou de dar na televisão – a paralização foi cancelada e remarcada pra segunda-feira. Podem tirar a bunda da parede, soteropolitanos)