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Pop, Girls, Etc.

sábado, agosto 1st, 2009

A primeira vez que eu li Alta Fidelidade eu tinha uns 17 anos, em 2001, e me apaixonei pelo livro. É difícil um adolescente desajeitado apaixonado por música conhecer Rob Fleming e não querer ser como ele. A vida patética dele é tão atraente, cheia de discos e citações e listas, trabalhando numa loja de discos com dois sidekicks, arrumando sua enorme coleção de discos, dizendo e pensando coisas inteligentes, analisando o pé-na-bunda-que-levou e as rejeições passadas com o mais puro e fino humor britânico. Rob Fleming era o adulto que eu queria me tornar. Eu não sei se pensava isso com todas as letras, mas me conhecendo como eu conheço…é, são grandes as chances.

Meu herói, arrumando a coleção de discos

Meu herói, arrumando a coleção de discos

Corta pra 2009, minutos depois de terminar de reler Alta Fidelidade. Eu ainda acho Rob um sujeito legal: faria compras na loja dele, iria no pub se ele me chamasse pra tomar umas cervejas, leria o blog dele (hoje em dia, idiotas como Rob tem blog). Mas…já não sei se quero ser como ele. Não sinto mais tanta inveja dele, de sua loja de discos, de seu conhecimento musical, de seus amigos, de sua “experiência” sentimental. Hoje eu consigo ver o Rob por trás de todas essas coisas e, surpresa, ele não é tão diferente de mim. Não tenho uma loja de discos, mas tenho conhecimento musical, amigos nerds, uma bagagem cheia de pés-na-bunda..já me basta. E aí você percebe que o seu herói da adolescência é um cara tão fodido e confuso e torto quanto você. E aí duas coisas acontecem, simultaneamente:

  1. Você se sente orgulhoso, porque atingiu seu objetivo.
  2. Você se sente deprimido, porque…que objetivo de merda, hein?

E orgulho e depressão se cancelam, então você fica com aquela expressão de “já vi tudo e tô nem aí”, exatamente como Fleming faria. Hmpf. Mas é verdade: hoje em dia eu entendo muito mais do livro do que entendi quando tinha 17 anos. Hoje em dia eu não fico mais pensando, eu tenho CERTEZA que foram todas as músicas tristes que me deixaram mais …suscetível a decepções amorosas, que me deixaram com um repertório pronto para toda sorte de pés-na-bunda. Hoje em dia eu não preciso mais imaginar as crises existenciais – eu vivo elas. Tem uma hora em que um sujeito engravatado entra na loja segurando a chave do BMW, e Rob fica se perguntando o que o cara pensa dele. Acontece isso comigo todo santo dia no escritório – o que será que esses caras pensam desse guri de camiseta e all-star que mais parece um intruso aqui? E o principal – aquilo que Rob fala sobre a necessidade de haver lastro, tranqueiras, coisas que te seguram para que você simplesmente não saia voando e se perca por aí. Isso é verdade, pelo menos pra mim.

( Não que eu esteja reclamando de nada. É minha vida, e eu tenho orgulho dela, por mais bagunçada e boba que seja. )

Isso tudo foi pra dizer que hoje em dia eu me identifico ainda mais com o Rob Fleming, e que pelo menos tenho a decência de sentir orgulho disso, pelo menos não em público? É, parece que sim. Mas serve também pra dizer que Alta Fidelidade continua sendo um ótimo livro. A parte final – depois que Rob e Laura voltam, e eles começam a conversar sobre eles, sobre a relação, sobre o que eles pensam, sobre como eles funcionam – ainda é minha preferida, e me faz pensar que ainda tem uma coisa de que eu sinto inveja de Rob e que eu ainda não consegui. Eu ainda continuo morrendo de vontade de escrever como Nick Hornby – e reler Alta Fidelidade me fez ver como eu continuo tentando emular ele, inconscientemente e sem sucesso. O cara é muito bom, no sentido de…eu não sei, ser cool? Eu simplesmente quero escrever como ele, quando eu crescer.