De bruxas, ovelhas e homens
domingo, setembro 6th, 2009(A Dona Lulu começou a postar sua série fantástica de posts sobre Terry Pratchett, que vocês podem e devem ler lá no blog dela. Lendo eles eu fiquei com vontade de falar das bruxas do Pratchett, e da interpretação que ele dá para elas. Em um mundo instável, ilógico e tão propenso ao impossível quanto o Mundo do Disco, as bruxas de Pratchett são inesperadamente as criaturas mais pés-no-chão de que se tem notícia. Elas não precisam da magia e do sobrenatural para fazer seu trabalho. Elas contam com a cabeçologia, que nada mais é do que o conhecimento de como as pessoas funcionam. É como a psicologia, mas sem dó nem piedade. Âncoras da realidade, elas dão para as pessoas aquilo que elas precisam e não o que elas querem – e justamente por isso são tão temidas, terríveis e absolutamente necessárias. Porque alguém precisa se levantar por aquilo que é certo, e alguém precisa falar por aqueles que não tem vozes, e alguém precisa encarar a realidade nos olhos mesmo que ela seja feia e morda. Esse alguém, nos livros do Pratchett, são as bruxas – principalmente a Vovó Wheaterwax, a Vovó Aching e a nova bruxa-em-treinamento Tiffany Aching. De todas elas, minha preferida é a Vovó Aching. Esse trechin…ok, esse TRECHÃO é do livro “The Wee Free Men”, e mostra um pouco da cabeçologia das bruxas sendo aplicada.)
“…Houve uma vez em que o cão de caça campeão do Barão foi pego matando ovelhas. Era um cão de caça, apesar de tudo, mas ele havia fujido para os pastos e, porque ovelhas correm, ele correu atrás…
O Barão sabia a punição para a morte de ovelhas. Haviam leis no Chalk, tão velhas que ninguém se lembrava de quem as havia criado, e todos conheciam esta: cães que matam ovelhas são mortos.
Mas esse cachorro valia cinco mil dólares de ouro, e o Barão – assim conta a história – mandou seu servo atravessar os pastos até chegar na cabana da vovó. Ela estava sentada nos degraus, fumando seu cachimbo e olhando os rebanhos. O homem chegou em seu cavalo e não se preocupou em desmontar. Esta não era uma atitude aconselhável se você quisesse que Vovó Aching fosse sua amiga. Ferraduras marcavam e cortavam seu gramado. Ela não gostava disso.
Ele disse “O barão ordena que você encontre uma maneira de salvar seu cão, Senhora Aching. Em retorno, ele lhe dará uma centena de dólares de prata”.
Vovó sorriu para o horizonte, pitou seu cachimbo por algum tempo, e respondeu:
“Um homem que se levanta contra seu senhor é enforcado. Um homem esfomeado que rouba uma ovelha de seu senhor é enforcado. Um cão que mata ovelhas é morto. Essas leis estão nessas colinas, e essas colinas estão em meus ossos. O que é um barão, para que a lei seja quebrada por ele?”
Ela voltou a observar as ovelhas.
“O Barão é dono deste país”, disse o servo, “A lei é dele”.
O olhar que Vovó Aching retornou para o homem deixou seu cabelo branco. É o que contam, pelo menos. Mas todas as histórias sobre Vovó Aching tem algo de conto de fadas.
“Se a lei é dele, como você diz, então deixe-o quebrá-la e vamos ver o que acontece então”, ela disse.
Algumas horas depois o Barão mandou seu xerife, cujo cargo era muito mais importante mas conhecia Vovó Aching por muito mais tempo. Ele disse, “Senhora Aching, o Barão pede que você use sua influência para salvar o cachorro. Ele ficará contente em pagar cinquenta dólares de ouro para que você o ajude a resolver essa situação difícil. Eu tenho certeza que a senhora pode ver como isso irá beneficiar todos os envolvidos.”
Vovó fumou seu cachimbo e olhava os cordeirinhos novos e disse: “Você fala por seu senhor, seu senhor fala por seu cão. Quem fala pelas colinas? Aonde está o Barão, que a lei deva ser quebrada por ele?”
Contasse que quando contaram isso ao Barão, ele ficou bem quieto. Apesar de ser um homem pomposo, e muitas vezes teimoso, e cabeça-dura ao extremo, ele não era estúpido. Ao fim da tarde ele foi andando até a cabana e sentou no gramado. Após algum tempo Vovó Aching disse “Posso te ajudar em alguma coisa, meu senhor?”
“Vovó Aching, eu lhe imploro pela vida do meu cachorro”, disse o Barão.
“Traz prata? Traz ouro?” disse Vovó Aching.
“Sem prata. Sem ouro.” disse o Barão.
“Muito bom. Uma lei que é quebrada em troca de ouro ou prata é uma lei que não presta. E então, meu senhor?”
“Eu imploro, vovó Aching.”
“Você tenta quebrar a lei com uma palavra?”
“Sim senhora, vovó Aching.”
Vovó Aching, assim conta a história, olhou o por do sol por algum tempo e então disse: “Então esteja no velho celeiro de pedra amanhã antes do sol nascer e nós veremos se um cachorro velho consegue aprender uns truques novos. Haverá um conselho. Boa noite para você.”
Quase a vila inteira estava ao redor do velho celeiro na manhã seguinte. Vovó chegou com uma das pequenas carroças da fazenda. Nela havia uma ovelha com seu cordeiro recém-nascido. Ela os colocou no celeiro.
Alguns dos homens chegaram com o cachorro. Estava bravo e nervoso, tendo passado a noite acorrentado num abrigo, e ficava tentando morder as mãos dos homens que os seguravam com duas coleiras. Era peludo. E tinha presas.
O Barão veio cavalgando com o xerife. Vovó Aching acenou com a cabeça para eles e abriu a porta do celeiro.
“Você vai colocar o cão no celeiro com as ovelhas, Vovó Aching?” disse o xerife. “Você quer matar o cachorro engasgado de ovelha?”
Ninguém riu da piada. Ninguém gostava muito do xerife.
“Isso nós veremos”, disse Vovó. Os homens arrastaram o cachorro porta adentro e fecharam a porta rapidamente. As pessoas correram para as pequenas janelas.
Ouve um balir do cordeirinho, um rosnado do cachorro, e então um “bááá” da ovelha.Mas esse não era o “báá” normal das ovelhas. Havia algo cortante nele.
Algo atingiu a porta e fez balançar suas dobradiças. Lá dentro, o cachorro gania.
Vovó Aching pegou Tiffany e a levantou até uma das janelas. O cão tremia e tentava ficar de pé, mas a ovelha não deixava, cinquenta quilos de ovelha enraivecida batendo no cachorro como se fosse um aríete.
A Vovó colocou Tiffany no chão e acendeu seu cachimbo. Ela pitava calmamente enquanto o prédio atrás dela parecia balançar e o cachorro gania e gemia.
Após alguns minutos ela fez sinal para os homens. Eles abriram a porta. O cachorro saiu mancando três de suas pernas, mas não conseguiu chegar muito longe antes da ovelha correr por trás dele e o cabecear com tanta força para o fazer rolar no chão.
Ele ficou parado. Talvez ele houvesse aprendido o que aconteceria se ele tentasse se levantar.
Vovó Aching sinalizou de novo para os homens, que pegaram a ovelha e a arrastaram de volta ao celeiro.
O Barão assistia de boca aberta.
“Ele matou um javali selvagem ano passado!”, disse ele. “O que você fez com ele?”
“Ele vai ficar bom”, disse Vovó Aching, ignorando a pergunta. “É mais a honra dele que foi ferida. Mas ele não vai olhar pra mais nenhuma ovelha, você pode ter meu dedo quanto a isso”. E ela lambeu seu dedão direito e o levantou. Após hesitar um momento, o Barão lambeu seu dedão e o apertou junto ao dedão dela. Todos sabiam o que isso queria dizer. No Chalk, uma barganha entre dedos era inquebrável.
“Para você, com uma palavra, a lei foi quebrada”, disse Vovó Aching. “Você se lembrará disso, quando for julgar outra pessoa? Você vai se lembrar desse dia? Você vai ter motivo pra se lembrar.”
O Barão concordou.
“Então está bom”, disse Vovó Aching, e os dedos se separaram.
No outro dia o Barão tecnicamente deu ouro para Vovó Aching, mas era só o pacote dourado de um quilo de Jolly Sailor, o fumo barato e fedido que era o único que ela fumava. Ela sempre ficava mal-humorada quando os comerciantes se atrasavam e o estoque dela acabava. Você não conseguia dobrar Vovó Aching nem com todo o ouro do mundo, mas você conseguia chamar a atenção dela com um quilo de Jolly Sailor.
As coisas ficaram bem mais fáceis depois do episódio. O xerife era um pouco menos desagradável quando os aluguéis se atrasavam, o Barão era um pouco mais educado com o povo, e o pai de Tiffany disse uma noite, depois de duas cervejas, que haviam mostrado para o Barão o que acontece quando as ovelhas se levantam, e a mãe sussurrava para que ele não falasse daquele jeito, nunca se sabia quem estava ouvindo.
E, um dia, Tiffany ouviu ele dizendo para sua mãe, bem baixinho: “É um velho truque entre os pastores, e só. Uma velha ovelha sempre luta feito uma leoa por seus cordeiros, todo mundo sabe disso.”
Foi assim que funcionou. Sem mágica alguma. Mas na hora havia sido mágico. E não deixa de ser magia só porque você descobriu como é que funciona.”
(Bruxas no estilo do Terry Pratchett existem, e acho que todos nós conhecemos pelo menos uma. Meu caso, eu conheço várias: a família da minha mãe me deu vários exemplos de mulheres assim, cabeças-dura ao extremo, mas com o “péssimo” hábito de estarem sempre corretas. E se eu pudesse dedicar essa história pra alguém, eu dedicaria ela pra Dona Mercedes. É estranho amar alguém que a gente nunca conheceu, mas o mundo é estranho assim mesmo. To you, Granny Martins
)






